terça-feira, 1 de novembro de 2011

Manancial de ausências




Eu, rio...
Choro, pois sei
Há mar distante
Por isso
Há lago em meus olhos
Poças de melancolia.

Jairo Cerqueira

Ambiguidade polissêmica




                                                           A pá lavra
                                                    A palavra dita.
                                                    Palavradiando
                                                       A palavra... dita!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Faces conflitantes






Ao contemplar-me
Frente ao espelho
Rejeito o mais velho
Que olha pra mim.
Ele é enrugado
Tem um rosto cínico
Já não é mais começo
Está perto do fim.
Quem é esse cara
Que me olha na cara
E depois cabisbaixo
Resolve voltar?
É só um qualquer
Que esquece de si
E passa a vida inteira
A me procurar.
Quem é esse cara
Que agora me encara?

Jairo Cerqueira

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Vazios



Numa tabacaria
Observando pessoas, por Pessoa
Vejo a metafísica que evapora
Num rosto doce de uma criança
Que degusta um chocolate.

Dedicado ao amigo poeta Milton Filho.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A miséria e o SUS

                                                 

Era por volta das 10h e D. Gilda observava atentamente a sua filha numa dessas macas ‘macabras’ oferecidas pelos desserviços do SUS (Sistema Único de Saúde) para o deitar dos pacientes. Não havia ar condicionado na sala, contudo o insuportável cheiro de éter até que refrigerava o ambiente, isso, quando proporcionado pela ação incontrolável de narinas desobstruídas.
_ D. Gilda! – disse o médico.
_ Oi, Doutor, diga logo... é ‘pobrema’?
_ Dona Gilda, sua filha apresenta certa irregularidade no joelho esquerdo e,...
_ Está quebrado, é ? – retrucou de imediato D. Gilda.
_ Não, D. Gilda, não é bem isso. A sua filha é portadora de uma anomalia...
_ Heeeeiiim!!? – D. Gilda o argüia desesperada.
_ Desculpe, Senhora. A sua filha está com um problema no joelho esquerdo e serão necessários alguns exames para que se possa detectar o tipo da patologia.
_ Diga logo ‘quantos é’ e quanto é que isso vai custar, Doutor. – D. Gilda já não agüentava mais aquele... digamos assim... ‘vocabulário medicinal’.
Após tomar conhecimento dos gastos que teria, e do trabalho para realizar os exames, Ela, agora mais cabisbaixa ainda, deixava o consultório sem dizer, sequer, uma palavra à sua filha. 
Sem muito boa vontade, pegou algumas sobras de dinheiro, contraiu alguns empréstimos com a vizinhança e partiu a providenciar realizar todo o processo para examinar a garota que tinha apenas 12 anos de idade.
Após realizar todo o procedimento e de posse dos documentos que datavam os dias dos devidos resultados, D. Gilda, já sabendo do seu prejuízo financeiro, chamou o vizinho mais íntimo e desabafou:
_ Você está vendo isso, Seu Jorge? Olhe o trabalho que filho dá! Olhe aqui os gastos que estou tendo por causa dessa menina!
Disse isso com o ar de revolta, e virou-se para a garotinha  com o dedo em riste... e
ameaçou:
_ "Olhe, seu diabo; você trate de ter alguma porra grave nesse joelho aí, viu? O meu dinheiro não é capim, pra depois de tanto esforço não dá nada demais".


Uma homenagem ao amigo Silas (Condutor de viatura hospitalar)



Jairo Cerqueira

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

                                      



Desejo a todos os amigos e amigas que fizeram e fazem parte dessa rede
Um ano de 2000 e 11 maravilhoso
Que o tempo, corroborado pela dádiva da reflexão 
Possa ser o Senhor de nossas atitudes
E o equilíbrio o gozo pleno d'um viver PLURAL
Nesta vida... implacavelmente SINGULAR.
Obrigado a todos vocês pelo prazer da companhia
E pelo prazer de ter um banco reservado
Nessa maravilhosa academia democrática. 


Um forte abraço !

FELIZ ANO NOVO

                                                            
                                                      



Chegou o dia 31 de dezembro, e com ele a oportunidade de fazer coisas que durante os 363 dias do ano não foi possível fazê-las.
É neste dia tão memorável que algumas pessoas acordam e vão imediatamente tentando decorar alguns jargões, que, apesar de serem demasiadamente  repetitivos carecem sempre de uns ensaios para saírem demasiadamente artificiais.
São frases e orações tão conhecidas que ao escutarem a primeira palavra, alguns ouvintes perspicazes já as interrompem com agradecimentos interceptativos quanto ao seu valor funcional. Afinal, tudo que vem de co-oração, pode se tornar verdadeiro.

“Te desejo tudo de bom esse ano!”
“Que Deus ilumine seus caminhos!”
“Que possamos ter muito dinheiro no bolso!”
“Saúde e paz, é só o que agente precisa. O resto se consegue!”
“Me perdoe por tudo de ruim que te fiz durante todo ano!”

Tudo isto dito com a sonoridade corrompida por uma inundação lacrimal capaz de resfriar o mais resistente sistema orgânico de defesa.
Muito, mas muito interessante também, é a espera pelo momento certo... “O certo é começar a desejar tudo isso exatamente a meia noite. É pra dar sorte, tem que ser na passagem do ano!”
Será? E o que dizer da passagem do ano onde o há Horário de Verão?
Não importa. O que vale mesmo é a tradição.
Na chegada do ano 2000, alguns esperaram o mundo acabar. Esses, com certeza, não tiveram motivação para o tão necessário ensaio de frases e orações, dedicando-se, então, somente às penitencias.
Levando a sério o Apocalipse, os mais fanáticos por farra optaram por romper o ano no Sul, pois, havendo lá “Horário de Verão”, teriam uma hora a mais para “entrarem em água dura”. Enfim, tudo correu bem, e o mundo continua existindo e possibilitando a cada final de ano momentos propícios para a redenção de alguns membros da raça humana.
Seria o dia 31 de dezembro o dia da redenção?
É um consolo saber que se pode pisotear, humilhar, desrespeitar e  massacrar o semelhante durante 363 dias do ano, por saber que no 365º, chegará a oportunidade de redimir-se?

Difícil responder. É uma pseudo e ordinária incógnita. Verdadeiramente inquestionável é a existência de pessoas desse tipo, com sensibilidade programada para ser acionada somente no dia da Confraternização Universal.
Sincera e honestamente, para alguns, seria frustrante ficar de fora de uma ação globalizada, ainda que em fuso horário diferentes.
Compreender que de uma forma ou de outra, somos todos da mesma espécie, portanto, susceptíveis ao ridículo em maior ou menor proporção, é algo essencial. Porém, entender posturas exageradamente convenientes e peçonhentas como algo que deve está alheio às pancadas, no mínimo, literárias, é o mesmo que admitir a bestialidade como algo inerente a natureza humana. Pode parecer incrível, mas há os que realmente externam um ataque de sentimentalismo no último dia do ano.
E se são contados 363 dias de ganância e desrespeito em uma vida voltada somente para o individualismo, em hipótese alguma houve lapso matemático. É que no dia 1º de janeiro, essas pessoas ainda estão, sob todos os aspectos, embriagadas; portanto, sem a mínima condição para recomeçar a sacanear o seu semelhante.



                                       Jairo – 11 de abril de 2005.