quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A origem de um mito

A vida carnal é tão viciosa que um filósofo ateniense dizia que tememos a morte sem nem ao menos conhecê-la. Alguns conhecedores da espiritualidade dizem que na hora da morte há uma enorme resistência para o espírito deixar a carne. Não sei ao certo se é isso que ocorre, porém um fato curioso aconteceu em um determinado lugarejo a muito, muito tempo:

Em meio a várias aves cultivadas em uma fazenda, havia uma galinha diferente de todas as outras. Era uma criatura apaixonada pela vida terrena. Viver! Viver! Viver! Era o seu lema; amava a vida e, portanto desenvolvera um método mirabolante para não se tornar conteúdo de cardápio. Criou mecanismos, obviamente fundamentada na psique, para perceber no semblante do bicho homem se seria ela a escolhida para ir à panela. Mediante esse estudo de semblante, toda vez que se percebia a escolhida, utilizava seus truques de camuflagem e escapava. A cada escapada mais vida, e a cada dia vivido, mais amor à vida. Pela arte de escapar da morte, tornou-se a mais velha entre as galinhas. Mas, por ironia do destino a velhice nos dá sabedoria, - por sinal, ela já dava consultoria sobre como resistir à matança -, contudo nos traz percalços como a falta de reflexo e agilidade. Certo dia, ao vacilar frente ao matador (o astigmatismo não lhe permitiu fazer a leitura do semblante), foi hostilmente capturada. Naquele momento sua alma sentiu pela primeira vez que poderia deixar o corpo. Então, ela gritou de forma dolorosa, ou cocoricou – como queiram. Nunca, na história se viu uma matança tão dolorosa, era a alma brigando para não deixar o corpo; ser corpo era bom, e a briga continuava. Para o espanto das poucas pessoas que lá estavam, entre a faca e o grito, a galinha sumiu das mãos do homem. Evaporou. Junto com sua alma, pasmem, foi também o seu corpo. Ninguém soube explicar o acontecido. Muitas pessoas não valorizaram o fato contado pelos empregados da fazenda. Mas ainda hoje algumas pessoas refletem sobre o fenômeno, sobretudo quando buscam entender o conceito de “ALMA PENADA”.




Jairo Cerqueira 18 de outubro de 2005.

1 comentários:

R. Marcchi disse...

Grande Jairo,

Rapaz... Que estória legal!! Sua criação?? Muito bom mesmo!!! Foi simples e totalmente verossímel.

Muito bom mesmo!!

Abraços,

R. Marcchi