quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Roma à primeira vista



Ítalo conheceu Laura, que já o conhecia antes que ele mesmo soubesse. É que Ítalo tinha olhos azuis. Isso chama muito a atenção das pessoas. Ao conhecer Laura, o rapaz, de imediato ficou deslumbrado: ela era dócil, meiga, falava pausadamente, exalava uma fragrância sem cheiro (isso é genial), era inteligente e..., tinha uma bunda volumosa. Isso chama muito a atenção das pessoas.
Na fluidez do diálogo, havia paridade entre os propósitos, eles se entendiam muito bem; perfeito encaixe de idéias. Apenas algumas discordâncias diminutas passavam opacas naquela enxurrada de aceitações e “coincidências”. Ela... tinha a bunda volumosa. Ele... os olhos azuis.
Combinaram, passearam, jantaram e, como quem baila solitários numa ilha, transaram sobre as areias dum arquipélago de edifícios e prédios banhados pelas águas dum oceano azul lunar. A noite era deles e nunca havia sido tão curta e insuficiente.
Agora, duas semanas já somam em suas vidas: jantam, passeiam, sorriem, e dentro deles um sentimento mútuo já começa a aparecer. Eles se olham, se sentem, se beijam loucamente e de maneira inquestionável viram ROMA ao avesso. Não há Império algum entre eles, somente o AMOR. E que ninguém se atreva a questionar essa química ebulida em seus hormônios. Ela... tem a bunda volumosa. Ele... os olhos azuis.
A loucura abismática que os consome, apoderou-se de tudo que podia se chamar de lucidez. E envolvidos pelo cheiro e pelo gosto, mandaram às  favas tudo o que não se chamava de agora. Logo, percebeu-se na protuberância abdominal de Laura, que chegava então um estranho irresponsavelmente preparado. Não! ROMA não foi queimada, foi tão somente posta ao avesso. E isso era algo perfeitamente crível pelos dois. Contudo, ela... tinha dezoito anos. Ele... trinta e seis.
Ela, uma estudante. Ele, um vendedor.
Preocupações, protestos, exclamações, interrogações, imposições e, pronto! Eles se casaram. Mais que isso; ouviram o padre dizer: “O que Deus uniu, o homem jamais separe”!
Foram viver juntos e em pouco tempo perceberam que faltava algo que amenizasse as diferenças anteriormente ocultadas entre os dois. E entre divergências, intolerâncias e conflitos, surge, no coliseu da rotina, a quase certeza de que o AMOR estava agora ao avesso. Ainda assim, quando havia tempo, encontravam sempre o motivo para a união sedenta dos corpos.
Ele... a bunda  volumosa.
Ela... os olhos azuis.

O amor é apenas uma armadilha da natureza para garantir a perpetuação da espécie”. (Arthur Schopenhauer) é



Jairo Cerqueira   

3 comentários:

Gookz disse...

e mesmo as vezes não é garantia alguma...

Léia disse...

Ei..Gookz, mas quem precisa de garantias no amor!!? rssr
Qual a necessidade delas, não gosto muito disso em relacionamentos, não dá pra tratar de amor, de sentimentos como se fosse fazer um negócio.. é esquisito pra mim..
abçss e tudo de bom pra ti meu querido jairo

Jairo de Salinas disse...

Gookz e Léia, obrigado pela visita e pelos comentários.