sábado, 30 de janeiro de 2010

Ebulição




Quando o meu corpo encontra o seu,
Nossos glóbulos fervem de uma forma especial.
O suor da sua pele misturado com o meu
Denunciam a ebulição de uma mistura hormonal.

Nessa hora o que era dupla
Torna-se só unidade
É todo o imaginário
Brotando em realidade

Não pode o coração ser envolvido neste ato
Os dois corpos clamam apenas por prazer sexual
E muito bem entrelaçados, vão aos poucos se entregando.

Numa noite prazerosa, alucinante e enluarada
A volúpia bombardeia de uma forma exagerada
E os gemidos forjam a idéia de que os dois estão se amando.

 Jairo A. Cerqueira  04/2006.





                                        

Eduque a ação



Ensinar é utopia, ninguém ensina nada a alguém. O ateniense, filho da parteira disse um dia: "Todo conhecimento vem de dentro".
Embasado por essa maravilhosa afirmativa, creio que o papel do professor é, acima de qualquer coisa, despertar no Aluno (Aluno = sem luz... da pra conceber essa etimologia nos dias atuais?) o desejo de retirar de dentro de si aquilo que pelo uso da sua reflexão será transformado em conhecimento.
Eis então o grande desafio: permitir que a informação seja livremente degustada para que o conhecer aflore com sabor transformador.
Não somos máquinas feitas para aperfeiçoar discípulos, somos apenas discípulos  ajudando a desmaquinar pessoas.
Que nossas ações não precisem ficar na história. Quando agirmos coletivamente de verdade, a história não terá tempo para idolatrias.
"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida. Ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias". (Nietzsche - Assim falou Zaratustra)
Parabéns, professor transformador!

Jairo Cerqueira  14/10/2009

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A escola pede socorro







A escola abriu os braços e clamou por socorro. Era mais um início de ano letivo e nada de novo aparecia, senão, o tipo das fardas a serem usadas por aqueles alunos que serviriam de modelo para incrementar o seu aspecto visual, um tipo assim de “marqueting de identidade”. Foi uma coisa deprimente; a escola gritava, e aos prantos entristecia-se mais e mais. Ao notar que seu clamor era extremamente imperceptível, não lhe restou outra coisa a não ser compreender que sua ação era tão patética quanto inútil. “Quero mudar!”- dizia ela.
Mas, para realizar o seu desejo, a antiga e arcaica escola precisava de uma ação corajosa e racional dos que lhe geriam: desde o topo até a base. No topo, sempre alguém com autonomia. Autonomia suficiente para fazer tudo que for necessário para não mexer nas estruturas de onde originou o seu cargo.


“Senhoras e senhores, a escola tem o asco de lhes apresentar o seu principal gestor... o TECNOBURROCRATA!”.


Na base, figuram os professores. Responsáveis pela aplicabilidade das ações pedagógicas, eles foram e continuam sendo escravizados pelo sistema ao qual se põem a criticar redundantemente em todos os cursos de especialização que fazem; mais por uma questão de status, que, pela necessidade de renovação do saber.
Sob o topo e a base, encontram-se os alunos. Esses recebem o produto de um trabalho com base na seguinte equação: (Q+A:B-Q=M=>I) Quantitativo (nota) + Assiduidade : Bom comportamento Questionamento = Mentira => Imbecilização. Porém, muitos deles acostumados a degustar essa “ração intelectual”, passaram a gostar, e inclusive brigar com alguns poucos profissionais que se arvoram a tentar incluir a reflexão e a construção como uma forma de tirá-los desse impiedoso esmagamento. Eles descobriram que mesmo esmagados, conseguirão atingir suas metas: por as mãos no tão venerado diploma.
Em meio a todos esses acontecimentos, a escola então, vendo-se na condição de dependente, segue o curso de sua história, inerte, passiva, inoperante; sendo um local chato, uma tribuna de discursos prolixos e repetitivos: “chamada, dever, lição e nota”, fórmula ideal para se fazer um idiota. O que lhe resta é adormecer, ser permissiva e esperar que aqueles que “podem” fazê-la diferente, realmente queiram sair do lugar comum em benefício da transformação desse quadro arcaico e deprimente.
Enquanto isso não acontece, você aluno! poderá encontrar em algumas escolas um túmulo escrito: “Aqui, JAZ a educação!”. E se por ventura na sua não houver, não se precipite em achar que ela ali vive. Antes de qualquer crise de otimismo, pense na possibilidade de sua instituição ser tão descompromissada que não se deram ao trabalho nem de sepultá-la. Ficando a pobrezinha enterrada em qualquer lugar como indigente. 








                                                      Jairo A. de Cerqueira  20/01/05                                                      

Crônica suburbana





“A saideira e a conta”! O cidadão, ouvindo aquela voz baritonal, levanta-se e se dirige até o balcão para fazer a soma, enquanto termina a última partida de palitinho, ou porrinha, ou... qualquer porra, nessa maravilhosa metamorfose lingüística. Já passava das 16:45m, e na Avenida Suburbana nós só pensávamos em tomarmos o ferrie boaty das 17:30m, antes, porém, esperamos (contra a vontade das mulheres, claro!) pra ver quem ia perder a final. Perdeu Lula, o último a entrar no jogo. Abraços e despedidas e então, entramos no carro. Éramos cinco pessoas: dois casais e um pequeno questionador descendente dos Karamazov (Dimitri). De saída perguntei meio perdido: “Vamos ter mesmo que retornar isso tudo? A saída é ali perto”! Os olhos do velho Chico, conduzindo o veículo, voltaram-se para os meus, de uma forma tão paciente que pouparam a sua voz de me dizer que a tal saída era contra mão. Lá fomos nós em busca do retorno para depois, seguirmos em direção ao terminal de embarque. Durante o percurso nos deparamos com uma aglomeração típica de um sábado movimentado no tráfego urbano, ou pra ser mais preciso... Suburbano. Várias pessoas em volta de um cidadão que gemia apenas com o semblante pálido e desolado, sem sequer poder se contorcer. E os nossos olhares, dentro do carro, observavam aquela cena com dúvidas medíocres, mas pertinentes ao momento. “Parece que foi moto”! – “Deve ter sido atropelado enquanto pedalava em sua bicicleta”! – “Será que estava em água dura”?
Enquanto isso, um bêbado lerdo acenava com os olhos e as mãos bambas, aliás, o corpo todo bambo, ordenando que adiantássemos o nosso lado.
“Aqui é foda, vacilou dançou”! - Mais um lugar comum expressado na falta do que dizer.
“Meu vô, dirija devagar, vochê tomou cerveja”! - Entrou em ação o lúcido questionador, atingido indiretamente pela cena desagradável que tinha visto. “Você não confia em mim não é seu porra”? - Disse o velho Chico, um pouco impaciente, mas não menos atento ao trânsito. “Não”! - Respondeu baixinho o esperto e precavido Dimitri.
Enfim, retorno feito, pista razoavelmente acessível e, novamente passando próximo ao local do fato, ouvindo o barulho da sirene da SAMU (serviço de atendimento médico de urgência), vendo o engarrafamento que se alongava do outro lado da pista e também o corpo que agora já se contorcia no asfalto, o velho Chico faz o seguinte comentário: “Se a gente demora mais um pouquinho pra sair, olhe só onde a gente ainda ia estar. O ferrie de 17e30  ia pra casa do caralho”!
E todos nós, sem lembrarmos um só momento do corpo que estava ao chão, concordamos plenamente com ele.
Isso não é nenhum absurdo; faz parte da defecção humana.
Vida que segue!


Jairo Cerqueira (após um dia mesclado entre shopping Center e barzinho de beira de pista)

As cabras de Lek piu


Era mais uma terça-feira quente no sertão da Bahia e a população de Valente despertava com um fato novo e incomum para avaliar e, claro, debater.
Cansado de conviver com a rotina dos pastos repletos de “Pérolas Negras” expelidas pelas cabras (diga-se de passagem, sem nenhum valor monetário), um típico cidadão valentense caminhava de posse em posse a observar as criações nelas contidas, como quem queria começar o dia em paz com a mãe natureza. Ao deparar-se, desta vez, com uma coloração diferente em algumas bolinhas de esterco espalhadas em certo pasto, o humilde homem foi tomado por uma grande surpresa, que junto com a sua curiosidade o deixou pálido e trêmulo. Logo que conseguiu respirar normalmente, chamou um dedicado estudante de 8ª série que estava a caminho da aula de história, e contou o que viu. Sem muito conversar, o “dedicado” aluno desviou a rota, se dirigiu ao local e foi o primeiro a veicular a notícia para as pessoas que encontrava:
___ “... brilhavam como pepitas extraídas de uma jazida mineira no século XVIII!” - dizia ele.
___ “Estamos diante de um milagre!” - sussurrava uma avarenta e fanática beata.
___ “Isto é caso para estudo!” - afirmava um QI acima da média, oriundo de uma cidade vizinha.
De repente, grita fortemente um cético que observava tudo atentamente:
___ “Seja lá o que for, não deixa de ter cheiro de MERDA-FOLCLÓRICA-BAIANA!”.
Ao ouvirem este brado, os menos ansiosos por fortuna deduziram de súbito, que as Cabras de um tal de “Leck Piu” (esta alcunha é uma mistura de quase inglês com italiano), estava aproveitando e degustando, fazia algum tempo, as sobras dos acarajés e abarás feitos pela baiana Luzimar. E como “mancha de dendê não sai”, já dizia o poeta Morais Moreira, lá estavam as tão contempladas e cobiçadas bolotas de excremento caprino, reluzentes como as pedras ainda não polidas, que sustentavam o luxo da vida imperial, prontas para enriquecer e adubar, apenas o solo valentense.
Se a moda pegar, a simpática população de Valente correrá o risco de conviver com o surgimento de uma nova patologia; o CAPA (Colesterol Agro Pecuário Adquirido).
Isso será caso para estudo?


Jairo Cerqueira - 18/01/2005

A intertextualização do pagode

Em uma mesa de bar escutei uma batida instigantemente compassada, mas que trazia, para o meu desgosto, um refrão esdrúxulo que putrefazia toda aquela beleza rítmica. Era algo mais ou menos assim: “Boca de me dê, boca de me dá. Boca de me dê, boca de me dá”. Confesso que nem para dançar eu tive ânimo, porém, para minha surpresa, aproximava-se de mim e do colega ao lado, uma figuraça que tinha por característica principal, o hábito de contribuir para pagar a conta. Pensei:
_ Será coincidência, ou certos “poemas pagodais” evoluíram para o plano astrológico?
Desconsiderei a dúvida. Logo em seguida fui presenteado com a Banda Adão Negro e suas canções conspirando contra o Apartheid. Eu e o colega já liberávamos adrenalina com a liberdade de expressão corporal (Assim define o companheiro Jíder sobre o Regaae) e quase todo o bar já entrava em sintonias rítmica, discursiva e consumista. Até que alguém bradou fortemente: “Tira essa maresia daí! (na verdade ele disse mesmo foi – essa misera). Esse alguém, aparentemente irritadíssimo, era uma vítima indireta do Apartheid cantado pelo “Adão”. Ao visualizar o porte físico do questionador, ou seja, do agitador, o garçom nos olhou com uma cara que tinha uma “Boca de me dê” uma solução. Vendo o vexame do Bar Man (esse texto é globalisadíssimo) rapidamente o amigo plagiou Sine Calmon e disse em voz alta:
_ Ta liberado brotheeeeeeer!
Demos continuidade ao papo recheado com lúpulo e cevada e, entre uma garrafa e outra ouvimos “Mulher Brasileira,” cantada pelo Psirico, uma bela canção, que, aliás, ironicamente foi composta pelo mesmo sujeito que antes havia metralhado algumas pagodeiras, mas... faz parte.
Após esse momento diferenciado do pagode baiano, ouvimos uma música que pode ser considerada como a silabação da mediocridade musicada. É algo assim que tem que ser minuciosamente interpretado. Portanto, o produto final dependerá muito do seu perfil adquirido nas séries iniciais, é tipo assim:
_ “Eu disse Ma mas (não seria mais? – Ah, deixa pra lá.)conha. Cadê?”
_” Sa mais ci”... “Saci mais zêru”!
Assim que a melodia começou, não tive outro jeito senão parar de conversar para meditar sobre algo que me chamou atenção. Com trabalhar essa obra musical com adolescentes e pré-adolescentes sem fazer apologia, e consequentemente ser censurado. Veio-me rapidamente um tirocínio: eu poderia tomar como bibliografia o livro “O Sítio do Pica-pau amarelo” de Monteiro Lobato. Seria o bastante, pois: O saci entraria na parte de estudo de lendas, não mais como muito moleque e sim como “Mutcho dôdho”. A maconha poderia ser trabalhada como crime ambiental, afinal de contas ela é cortada, e queimada muitas vezes sob a luz solar (que é uma fonte natural de energia) ou, em antítese, ela poderia ser vista como remédio (droga). Quem sabe se a sua utilização não faria a Cuca ficar legal (boazinha) e de quebra ainda fizesse a cabeça da pobre mula.
De fato, penso que possa ser um show interdisciplinar.
Como já saí do plano etílico para o educativo, vou finalizar, expondo algo que me foi perguntado por um aluno aspirante ao Segundo Grau, logo após conversarmos bastante sobre a influencia de algumas letras de pagodes na formação do aluno universitário.
_ Você gostaria de ver suas filhas dançando “Rala a Theca no chão”. – perguntou ele cinicamente.
Respondi de imediato:
_ Preferia que fosse... “Desce com a mão no Tabaco”! Por entender que é algo mais higiênico e evitaria uma possível contaminação vaginal.

Jairo Cerqueira

A origem de um mito

A vida carnal é tão viciosa que um filósofo ateniense dizia que tememos a morte sem nem ao menos conhecê-la. Alguns conhecedores da espiritualidade dizem que na hora da morte há uma enorme resistência para o espírito deixar a carne. Não sei ao certo se é isso que ocorre, porém um fato curioso aconteceu em um determinado lugarejo a muito, muito tempo:

Em meio a várias aves cultivadas em uma fazenda, havia uma galinha diferente de todas as outras. Era uma criatura apaixonada pela vida terrena. Viver! Viver! Viver! Era o seu lema; amava a vida e, portanto desenvolvera um método mirabolante para não se tornar conteúdo de cardápio. Criou mecanismos, obviamente fundamentada na psique, para perceber no semblante do bicho homem se seria ela a escolhida para ir à panela. Mediante esse estudo de semblante, toda vez que se percebia a escolhida, utilizava seus truques de camuflagem e escapava. A cada escapada mais vida, e a cada dia vivido, mais amor à vida. Pela arte de escapar da morte, tornou-se a mais velha entre as galinhas. Mas, por ironia do destino a velhice nos dá sabedoria, - por sinal, ela já dava consultoria sobre como resistir à matança -, contudo nos traz percalços como a falta de reflexo e agilidade. Certo dia, ao vacilar frente ao matador (o astigmatismo não lhe permitiu fazer a leitura do semblante), foi hostilmente capturada. Naquele momento sua alma sentiu pela primeira vez que poderia deixar o corpo. Então, ela gritou de forma dolorosa, ou cocoricou – como queiram. Nunca, na história se viu uma matança tão dolorosa, era a alma brigando para não deixar o corpo; ser corpo era bom, e a briga continuava. Para o espanto das poucas pessoas que lá estavam, entre a faca e o grito, a galinha sumiu das mãos do homem. Evaporou. Junto com sua alma, pasmem, foi também o seu corpo. Ninguém soube explicar o acontecido. Muitas pessoas não valorizaram o fato contado pelos empregados da fazenda. Mas ainda hoje algumas pessoas refletem sobre o fenômeno, sobretudo quando buscam entender o conceito de “ALMA PENADA”.




Jairo Cerqueira 18 de outubro de 2005.